Cetamina e Escetamina no Tratamento da Depressão Resistente: Como Funciona?

A Cetamina e a Escetamina (Spravato) são consideradas o maior avanço da psiquiatria nos últimos 50 anos para o tratamento da depressão resistente. Ao contrário dos antidepressivos comuns, que levam semanas para agir sobre a serotonina, a Cetamina atua diretamente no sistema glutamatérgico, promovendo a reparação de conexões neurais (sinaptogênese) e oferecendo alívio dos sintomas, incluindo a ideação suicida, em poucas horas ou dias.

O que é a Cetamina Medicinal e como ela age?

Originalmente utilizada como anestésico, a Cetamina (ou Quetamina) em doses subanestésicas revelou-se um potente agente psicoterapêutico para Casos Resistentes ao Tratamento Convencional. Diferente das medicações “faixa-preta” que apenas sedam o paciente, a Cetamina medicinal atua como um “fertilizante cerebral”, estimulando o cérebro a criar novas rotas de comunicação.

Cetamina Venosa vs. Escetamina Intranasal (Spravato)

Atualmente, existem duas formas principais de acesso a este tratamento na prática clínica:

  • Cetamina Racêmica (Infusão Venosa): Administrada via soro em ambiente clínico. Oferece uma biodisponibilidade de 100% e permite um ajuste de dose milimétrico pelo médico assistente.
  • Escetamina (Spravato – Spray Nasal): É a molécula purificada, aprovada pela ANVISA especificamente para depressão resistente. É administrada via nasal sob supervisão médica, sendo uma opção prática e altamente eficaz.

A Revolução do Glutamato e a Neuroplasticidade

Os antidepressivos tradicionais focam em monoaminas (serotonina, dopamina). No entanto, muitos pacientes apresentam falhas nestes recetores, gerando a Pseudorresistência ou Refratariedade. A Cetamina ignora estas vias e foca no Glutamato, o principal neurotransmissor excitatório do cérebro.

Ao bloquear os recetores NMDA e ativar os recetores AMPA, a substância liberta o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). Na prática, isso significa que o cérebro “reconstrói” as espinhas dendríticas que foram atrofiadas pelo stress crónico e pela depressão prolongada.

Indicações: Quando a Cetamina é a escolha certa?

A Cetamina não é uma primeira linha de tratamento, mas é a intervenção de escolha para:

  • Pacientes que falharam em 2 ou mais tratamentos antidepressivos.
  • Quadros de depressão bipolar (em associação com estabilizadores).
  • Emergências psiquiátricas com risco de autoextermínio.
  • Transtorno de Stress Pós-Traumático (TSPT) severo.

O Protocolo de Infusão: Segurança e Monitorização

Na clínica do Dr. Sérgio Cabral Filho, a segurança é a prioridade absoluta. O paciente não é “drogado”, mas sim submetido a um protocolo controlado:

1. Monitorização: Pressão arterial, frequência cardíaca e oxigenação são vigiadas durante todo o processo (que dura cerca de 40 a 60 minutos).
2. Ambiente: Um espaço calmo e acolhedor para minimizar qualquer dissociação desconfortável.
3. Pós-procedimento: O paciente permanece em observação até estar totalmente lúcido, sendo obrigatória a presença de um acompanhante.

O que esperar dos resultados: Remissão e Manutenção

Ao contrário dos remédios orais, a resposta pode ser dramática. Cerca de 70% dos pacientes resistentes apresentam melhora significativa após as primeiras sessões. No entanto, a Cetamina é frequentemente utilizada como uma “ponte” para que outras terapias, como a EMT (Estimulação Magnética) ou a própria psicoterapia, voltem a ser eficazes.


FAQ: Dúvidas sobre Cetamina na Psiquiatria

  1. A Cetamina causa dependência?
    Em doses medicinais, controladas e em protocolo clínico, o risco de dependência é extremamente baixo, ao contrário do uso recreativo.
  2. Vou ter alucinações?
    Pode ocorrer uma leve sensação de dissociação (sentir-se “fora do corpo”), que é passageira e controlada pela equipa médica.
  3. Quantas sessões são necessárias?
    O protocolo inicial geralmente envolve de 6 a 8 infusões em fase de indução, seguidas de manutenção personalizada.
  4. Quem tem hipertensão pode fazer?
    Sim, desde que a pressão esteja controlada e haja monitorização rigorosa durante a sessão.
  5. A Cetamina substitui os meus remédios atuais?
    Geralmente, ela é um tratamento adjuvante, ou seja, funciona em conjunto para potencializar a recuperação.

Referências

Zarate, C. A., et al. A Randomized Add-on Trial of an Antiglutamatergic Compound in Treatment-Resistant Depression. Archives of General Psychiatry.

Sanacora, G., et al. A Consensus Statement on the Use of Ketamine in the Treatment of Mood Disorders. JAMA Psychiatry.

ANVISA. Aprovação do Cloridrato de Escetamina para Depressão Resistente ao Tratamento.

Stahl, S. M. The Mechanism of Action of Ketamine: From Anesthesia to Depression.

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